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Duna (1984) seca a alma com adaptação deserta de emoção

O que caracteriza uma boa adaptação? Duna de 1984 esvazia os principais pontos do livro de Frank Herbert e entrega um filme apático e sem propósito. Será que uma história se sustenta apenas com fatos?

Duna já foi adaptado para o cinema! Em 1984, David Lynch assumiu o projeto como roteirista e diretor, entregando uma obra polêmica. Os efeitos especiais são chocantes e o filme parece que saiu direto de um power point, porém, o mais curioso não é o aspecto “tosco” justificado, em parte, pela época, mas a falta de engajamento emocional, Duna de 1984 é uma obra apática e sem qualquer essência e senso de identidade.

Nesta adaptação, todas as decisões erradas foram tomadas. O problema começa com o roteiro fraco que demonstra falta de habilidade em lidar com o material, retirando as principais características da obra e a transpondo numa história de checkpoints vazios que ninguém, em momento algum, nos instigou a se importar. O filme é uma sucessão de fatos da história que não conseguem transmitir emoção, significado e abordar toda a nuance, sutileza e profundidade que a obra demanda.

Logo no início, temos a história apresentada pela princesa Irulan (Virginia Madsen) que, ao contrário do livro, não busca nos intrigar com enigmas e dimensão emocional, apenas relata um contexto como uma história infantil – se assemelha mais a leitura da introdução de qualquer filme de Star Wars. Essa é uma decisão compreensível, porém mal executada: somos bombardeados de informações por uma personagem mal introduzida que se mostra como alguém omnisciente jamais trabalhada. Este é o primeiro indício da má transposição dos elementos do livro e de que, daquele momento em diante, perderíamos todo sarcasmo, mistério e inteligência da obra.

Sobrevivido ao tédio introdutório, a adaptação erra ao encarar apenas a aventura do protagonista e transformar uma obra complexa numa jornada do herói rasa e apática. Além de não nos apegarmos a Paul Atreides (Kyle MacLachlan), o personagem é reduzido a um menino sem graça, excluído dos seus conflitos internos e colocado no papel de bom moço que não lhe cabe, exatamente. Se o protagonista é unidimensional, o destino dos demais personagens não poderia ser diferente: todos reduzidos a um entre e sai de cena, sem qualquer construção de relacionamento, conflito ou diálogo – este sendo um ponto essencial do romance.

O texto do filme parece uma palestra para o expectador, totalmente desprovido de emoção, fluidez e identidade. É nítido o apego aos fatos do livro, porém, o trabalho de uma boa adaptação não é ser fiel apenas a acontecimentos da história, mas saber transmitir a atmosfera, a mensagem e a essência da obra, nos imergir no universo. Poderiam ser excluídos os inúmeros checkpoints e ter simplificado a jornada em prol do resgate de diálogos sagazes, jogo político e aprofundamento de personagem. A história é simplesmente muito grande para um único filme, e David Lynch sacrificou a densidade da obra por uma aventura genérica e entediante.

A apatia dos personagens é agravada pela péssima atuação e entrosamento entre o elenco – a sensação é que os atores estão tão perdidos quanto o expectador e já deixaram de se importar com aquele enredo a muito tempo. O aspecto unidimensional dos personagens é transmitidos pela expressão única que todos carregam ao longo das quase 2 horas. Os momentos de rompante são exagerados, as coreografias das cenas de luta são péssimas, falsas e, por vezes, temos a certeza de que fomos enganados e estamos assistindo a uma paródia, ou a um trabalho de conclusão de curso de alguém.

Mesmo se tratando dos anos 1980, acho que vale trazer alguns recortes que desapontam bastante. O primeiro é que fora o elenco ser ruim, é composto apenas por atores brancos – algo que vai além apenas da representação e diversidade, visto que a história aborda um povo cuja inspiração foi em países do Oriente Médio. Isto é incongruente com a proposta do livro e prova, mais uma vez, que a essência e o significado da história foram totalmente jogados de lado, incompreendidos ou, pior, simplesmente ignorados.

O enredo que mais sofre cortes é o da Lady Jéssica (Francesca Annis), mãe de Paul. Ela é a personagem feminina de maior destaque, poderosa, influente, forte e enigmática que, aqui, é reduzida a aparições esporádicas com, no máximo, três falas. Mesmo que a obra de Frank Herbert não seja o auge da representação da mulher, há 20 anos antes do filme, ela era um pouco melhor daquilo que foi trazido para as telas.

Os efeitos especiais e todo o aparato tecnológico do universo de Duna é tosco e, mesmo para a época, algumas coisas são mal feitas, talvez por uma questão de orçamento. No entanto, esta é a única parte que ajuda a criar um senso de identidade com a obra, e, no meio do filme, estamos, de certo modo, acostumados e apegados àquela produção universitária. Ela conta com as clássicas características dos anos 1980, com transições horríveis direto do power point gratuito, efeitos sem noção e chroma-key de loja de R$1,99 que fazem parte da experiência.

São nesses momentos que vemos vislumbres quase como um pedido de socorro do diretor David Lynch. Pequenos toques psicodélicos que fazem alusão ao mèlange e a forma de encarar a vida dos fremen. Essas raras pinceladas de Lynch na obra o deixaram, assim como o público, super insatisfeito com o resultado final. O cineasta culpa os produtores do filme pela versão final e, apesar de sabermos que, no fim do dia, são eles quem decidem como a obra ficará, é duvidoso que tenha muito material não aproveitado.

O roteiro e a direção foram comandados por David Lynch, principais pontos deficientes do longa. É claro que para os produtores, principalmente a época, trazer uma jornada do herói era a garantia de bilheteria certa, mas bastava ler o livro para perceber o quão fraca e distante a adaptação ficou da proposta original! Existe um grave problema de execução em cada aspecto do filme.

Dada toda essa trajetória catastrófica, o final foi alterado para caber nesse projeto limitado, onde o maniqueísmo foi exacerbado, caricaturas foram adotadas e a história se conclui de forma simplória, empobrecida e plana. Todas as temáticas de Duna não chegam a lugar nenhum, e a tortura acaba com a vitória vazia de um homem branco derrotando um projeto de russo mal elaborado. Frustrante.

Duna de 1984 é um filme sem alma, engessado e mecânico destinado a não funcionar. Ele não dialoga com quem leu a obra, e nem com quem não leu. Faz todas as alterações possíveis para esvaziar o livro de crítica, significado e reflexão, não proporcionando qualquer unidade de emoção sequer! É sofrível assistir ao trabalho de alguém ser tão descaracterizado: tanto de Frank Herbert quanto de David Lynch. Hoje, este é tido como um “clássico cult alternativo”, mas, tenho para mim, que as pessoas devem apenas gostar desse filme de forma irônica, pois é uma verdadeira aula sobre como não se adaptar um livro para o cinema.

Avaliação: 2 de 5.

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